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Por Marisa Jamaica em 28 de Outubro de 2009 · Leave a Comment · Classificado em Inovação


Depois do desafio que o meu bom amigo Vasco Sousa fez há uns tempos, decidi finalmente escrever-vos estes pensamentos, que fizeram parte do tema principal da minha tese de licenciatura há uns anos valentes: o Amor. E que se aplica a algo tão tangível como o mundo do trabalho.
Não me apetece falar daquilo que já todos sabemos: que vivemos numa época de crise de valores, que o amor já não era o que era, que os bancos emprestaram demasiado tornando-nos consumo-dependentes, que temos demasiadas coisas que não são nossas e das quais não precisamos, que os sistemas económicos estão a entrar em colapso, que o planeta está doente, que vivemos uma era do vazio…
Quero falar-vos é do que ainda temos, do que é gratuito e que não está dependente do nosso gestor de conta nem do orçamento familiar e que nos permite viver de uma forma intrinsecamente significativa.
No meu caso particular tive o prazer e o sofrimento de construir de raíz empresas próprias. Confirmei que gosto de pessoas. E essas, há-as em todo o lado. De todo o género. Somos 6,6 mil milhões.
Descobri que estar com pessoas me fazia feliz. Ora a descoberta filosófica do que nos faz felizes só pode ser uma travessia pessoal. Descobri que felicidade não é o mesmo que alegria, pois tive momentos de tristeza mesmo sendo feliz. Paradoxal não?
Descobri que gostar de pessoas, ser feliz e encontrar beleza nos meus dias, nas mais pequenas coisas, era o que de facto preenchia a minha vida e lhe dava um significado mais profundo. Que “o meu peso é o meu amor” (esta expressão não é originalidade minha, é de Sto. Agostinho). O amor é o meu peso no sentido de me ligar à vida, de me dotar de gravidade. É como um fio invisível que se estende por entre tudo e todos aqueles que me tocam, de uma forma ou de outra, formando uma teia viva e dinâmica.
E o que falta em muitas das nossas empresas são estas células base da vida humana. Bem-querer, amor, felicidade.
Muitas delas até já se desfazem em acções de formação que tentam preencher a falha, embora não se compreenda bem a origem da mesma. Mas por muitas actividades radicais que façam, fins-de-semana forçosamente divertidos organizados por empresas de eventos, uma panóplia de “sentidos de vida” empacotados à pressa para caber no orçamento dos recursos humanos, ainda assim, há tanta infelicidade no emprego. Que leva à falta de empenho, à falta de resultados e consecutivamente à falta de rentabilidade. E mais grave ainda, à infelicidade pessoal.
Na minha primeira empresa não tínhamos possibilidade de pagar ordenados elevados. Não tínhamos fins-de-semana chiques em hotéis, não existia um director de RH para processar ordenados e anotar férias. Ainda por cima trabalhavamos num ramo de elevada rotatividade de pessoal, a restauração.
E esta mesma empresa de que vos falo teve a mesma equipa, unida e com excelentes resultados, durante quase 5 anos.
E como? Tendo uma equipa feliz!
Um equipa de pessoas que foram escolhidas não apenas pelas suas capacidades técnicas, mas sobretudo humanas. Porque era de uma equipa de pessoas que a minha empresa precisava.
“Diga-me qual é o seu sonho”, perguntava nas entrevistas. E perguntam-me, “mas para servir às mesas ou ser chef de cozinha é preciso ter um sentido de vida?”. Sim, ah pois é! É preciso em tudo, porque não haveria de ser no trabalho? Saber os sonhos daquelas pessoas ajudava-me a motivá-las, a encontrar campos comuns de interesse. Até no simples acto de dar um prémio. Que nem sempre era monetário. Podia ser uma ida ao cinema ou ao teatro ou mesmo um utensílio para a casa que andavam a namorar há meses. Uma festa de natal não tem de ser realizada a gastar dinheiro em inutilidades para cumprir o amigo secreto, pode servir para unir a equipa na ajuda da pintura da casa de um colega que precisa ou motivar todos a fazer um pequeno espectáculo para apresentar à família.
Não há regras, na realidade, para além desta: bem-querer e amor geram felicidade. Pacificam conflitos. Em qualquer parte do mundo.
No que temos fora de nós e no que temos por dentro.

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